#3 Elena
"Você não ia querer conhecer Elena"
“Eu podia morar em qualquer lugar do mundo, menos em Nova York. Que eu podia escolher qualquer profissão, menos ser atriz. No dia 4 de setembro de 2003, eu me matriculei no curso de teatro da Columbia University. Queriam que eu te esquecesse Elena…”
“Essa linda menina, é minha irmã”
“Você me mostra a coleção inteira de filmes do Shirley Temple e me treina para ser atriz. Até que um dia você para de brincar de teatro comigo. Pra virar atriz de verdade”
Elena é um documentário brasileiro lançado em 2012, dirigido por Petra Costa. O filme é bastante íntimo e emocionante — quase como uma carta ou um diário em forma de cinema. Nele, Petra conta a história de sua irmã mais velha, Elena Andrade, que nos anos 90 deixou o Brasil e foi para Nova York tentando realizar o sonho de ser atriz. Só que essa não é uma história contada de forma tradicional, com começo, meio e fim. É uma narrativa delicada, construída por meio de lembranças, gravações caseiras, cartas antigas e cenas que mais parecem sonhos ou memórias. Elena, que desde pequena queria ser artista, era intensa e cheia de sentimentos à flor da pele. Mas também lutava contra uma tristeza profunda. Ela acabou não conseguindo lidar com a solidão e a pressão da vida em Nova York e tirou a própria vida. O documentário começa com Petra voltando à mesma cidade anos depois, tentando entender quem era aquela irmã que ela perdeu tão cedo — e o que restou dela no tempo e dentro de si mesma.
Esse corpo tá doente. A vida o fez totalmente doente.. Totalmente. Aquele eu descontrolado voltou e eu ajo como se atuasse, percebo tudo, como uma tela de cinema. O meu tempo.. respiração.. os olhos ficando diferentes.. Depois que você morre, nossa mãe vira saudade. Sempre com olhar distante, triste. Eu pergunto: “Que que foi mãe? Você está triste?” Ela me olha em silêncio. Esboça um sorriso e diz: “Tô pensando na Elena…”
E quando ela volta?
Ela tá morta. Ela não volta nunca mais..
Durante o filme, Petra narra seus pensamentos em voz baixa, quase sussurrando, como se estivesse falando diretamente com Elena. Ela compartilha suas lembranças de infância, o vazio que a irmã deixou, e como isso afetou sua própria vida. Aos poucos, a gente percebe que essa busca por Elena acaba sendo também uma maneira de Petra se encontrar. As duas se parecem em muitos aspectos — nos sonhos, na maneira de sentir o mundo, até no corpo e nos gestos. É como se a história da irmã se misturasse com a dela. Visualmente, o filme é muito bonito e simbólico. Há muitas imagens de água, pessoas flutuando, cenas em câmera lenta, como se tudo estivesse acontecendo num espaço entre o real e o imaginado. Isso cria um clima muito sensível, quase poético. A trilha sonora e a montagem também ajudam a construir essa atmosfera de lembrança, saudade e luto. Além da parte emocional, o filme também toca de leve em questões políticas. Os pais de Petra e Elena foram militantes contra a ditadura militar no Brasil, e isso marcou a infância delas de certa forma — com exílio, incertezas e medo. Mas o foco principal do documentário é a relação entre as irmãs, o luto e a dor de quem fica depois de uma perda tão difícil. Elena não tenta explicar tudo ou dar respostas prontas. Pelo contrário: ele convida o espectador a sentir junto com Petra. É um filme sobre perda, mas também sobre memória, amor e transformação. No fim das contas, Petra transforma o silêncio que Elena deixou em palavras, imagens e arte — como se desse à irmã a chance de continuar existindo, de outro jeito.
É um filme tocante, que fala com muita sensibilidade sobre temas como depressão, saudade, identidade e a maneira como a dor pode, aos poucos, virar criação. Um retrato bonito e sincero de uma relação entre irmãs, feito com muito cuidado e verdade. Para quem esteja interessado em assistir tem no Youtube e na Netflix.





eu simplesmente amei